13 fevereiro 2011

Tolkien - O Silmarillion - Da Guerra no Céu e a Criação

Confesso que tenho passado por uma temporada filosófica, reflexiva, simplesmente extraordinária nos últimos tempos, coisas que até me tiram o sono pois fico pensando e contemplando esses pensamos, descobertas, e buscas. De certo modo, isto ocorrera desde que li Sêneca pela primeira vez, tive a aula de psicologia na USP que estamos vários filósofos da História e tive meus primeiros contatos com as sinfonias de Anton Bruckner.

Bem, essa manhã tive uma mistura um tanto intensa demais para minha cabeça. Fui ler "O Silmarillion" enquanto ouvia a 7ª Sinfonia de Sibelius de uma interpretação absolutamente divina de Mravinsky com a Orquestra Filarmonica de Leningrad. Em dos momentos, na parte do primeiro solo do trombone, nossa! Eu até tive um tipo de tique e disse para as paredes em voz alta e espantada: "O que é isso!?" De tamanho o espanto, com um momento puramente sinfonico que fez soar uma melodia ligado com uma harmonia de tal modo que causou uma imagem, uma figura, uma cor divina que eu nunca conseguira imaginar, nem em nenhum momento filosófico ideal qual consegui conceber algo de tamanha beleza e pureza. [Se quiserem ouvir aqui está o link para download]

Para rechear ainda mais meu café da manhã, me deparo com uma prosa de conteúdo extraordinário escrito por Tolkien. Ficou elementar que Tolkien desenvolve tal narrativa inspirada na Bíblia contanto sobre Lucifer, o anjo de luz, mais próximo de Deus, o Criador, e que este se torna orgulhoso, e faz uma peleja no Céu, e é enviado a Terra; e que na Terra, busca destruir o que foi feito pelos bons anjos, a partir da Música, do Tema composto e feito pelo Criador, ou então corrompendo-o. E querendo então, tornar-se o Rei da Terra, dominá-la, e ter os filhos de Deus como seus sucitos, servindo-o, e chamando-o de "Senhor". (apenas mudou os nomes, e alguns detalhes, mas é basicamente isso). Contudo, a principio, Tolkien explora tudo isso a partir da música, de uma forma profundamente filosófico, e de uma concepção de música que diria poucos ter, mas de modo, que fica nitido, quando se depara com esta sinfonia de Sibelius. (aliás, o que Sibelius compos que não foi incrivelmente maravilhoso?)

A minha vontade é de escrever quase o primeiro capitulo inteiro de "O Silmariollion", porém, me restringirei a alguns parágrafos.

"Ergueu-se então Ilúvatar, e os Ainur perceberam que ele sorria. E ele levantou a mão esquerda, e um novo tema surgiu em meio à tormenta, semelhante ao tema anterior e ao mesmo tempo diferente; e ganhava força e apresentava uma nova beleza. Mas a dissonância de Melkor cresceu em tumulto e o enfrentou. Mais uma vez houve uma guerra sonora, mais violenta do que antes, até que muitos dos Ainur ficaram consternados e não cantaram mais, e Melkor pôde dominar. Erguei-se então novamente Ilúvatar, e os Ainur perceberam que sua expressão era severa. Ele levantou a mão direita, e vejam! Um terceiro tema cresceu em meio à confusão, diferente dos outros. Pois, de início parecia terno e doce, um singelo murmúrio de sons suaves em melodias delicadas; mas ele não podia ser subjugado e acumulava poder e profundidade. E afinal pareceu haver duas músicas evoluindo ao mesmo tempo diante do trono de Ilúvatar, e elas eram totalmente díspares. Uma era profunda, vasta e bela, mas lenta e mesclada a tuma tristeza incomensurável, na qual sua beleza tivera principalmente origem. A outra havia agora alcançado uma unidade própria; mas era alta, fútil e infindavelmente repretitiva; tinha pouca harmonia, antes um som uníssono e clamoroso como o de muitas trombetas soando apenas algumas notas. E procurava abagar a outra música pela violência de sua voz, mas suas notas mais triunfais pareciam ser adotaras pela outra e entremeadas em seu próprio arranjo solene.


No meio dessa contenda, na qual as mansões de Ilúvatar sacudiram, e um tremor se espalhou, atingindo os silêncios até então impassíveis, Ilúvatar ergueu-se mais uma vez, e sua expressão era terrível de ver. Ele então levantou as duas mãos, e num acorde, mais profundo que o Abismo, mais alto que o Firmamento, penetrante como a luz do olho de Ilúvatar, a Música cessou.


Então, falou Ilúvatar e disse: - Poderosos são os Ainur, e o mais poderoso dentre eles é Melkor; mas para que ele saiba, e saibam todos os Ainur, que eu sou Ilúvatar, essas melodias que vocês entoaram, irei mostrá-las para que vejam o que fizeram. E tu, Melkor, verás que nenhum tema pode ser tocado sem ter em mim sua fonte mais remota, nem ninguém pode alterar a música contra a minha vontade. E aquele que tentar, provará não ser senão meu instrumento na invenção de coisas ainda mais fantásticas, que ele próprio nunca imaginou.


(...)


Entrentanto, quando eles entraram no Vazio, Ilúvatar lhes disse: - Contemple sua Música! - ... E, depois que os Ainur haviam olhado por algum tempo, calados, Ilúvatar voltou a dizer: - Contemplem sua Música! Este é seu repertório. Cada um de vocês encontrará aí, em meio à imagem que lhes apresento, tudo aquilo que pode parecer que ele próprio inventou ou acrescentou. E tu, Melkor, descobrirás todos os pensamentos secretos de tua mente e perceberás que eles são apenas uma parte do todo e subordinados à sua glória.


(...)


E ele fingia, a princípio até para si, que desejava ir até lá e ordenar tudo pelo bem dos Filhos de Ilúvatar, controlando o turbilhão de calor e frio que o atravessava. No fundo, porém, desejava submeter à sua vontade tanto elfor quanto homens [os filhos de Ilúvatar], por invejar-lhes os dons que Ilúvatar prometera conceder-lhes; e Melkor desejava ter seus próprios súditos e criados, ser chamado de Senhor e ter comando sobre a vontade de outros.


(...)


E assim, quando a Terra ainda era jovem e repleta de energia, Melkor a cobiçou e disse aos outros Valar [os Ainur que foram para a Terra] - Este será o meu reino; e eu o designo como meu!"

...
[tá, vou parar de usar os nomes do livro, e usar os nomes biblicos]
Ok. Pulei muito detalhe. Uma das partes que mais me surpreendeu, foi quando Deus deu uma visão aos Anjos sobre as suas músicas, o repertório. E então, a música passa a ser associada a tudo. Se associa ao plano de Deus na criação do Mundo, da Terra. A música de depois iria a produzir, e como se vissem então um filme sobre a Terra e Sua História, puderam contemplar como uma visão ou profecia, as consequencias de suas músicas. Além disso, puderam ver na Terra, como nos oceanos, e principalmente na água, ainda o eco de um dos temas da música de Deus, coisas que eles nunca imaginaram e se maravilharam. E também, de modo que parece que todo o cursor da História da Terra, tanto da natureza quanto das sociedades e dos homens, eram ligados a essas músicas que eles fizeram. Porém, nisso também virão as consequencias que viria a música de Lucifer, que sua concretização se daria por todo o caos no mundo, pela destruição e tudo o mais.

"Respondeu então Ulmo [um dos anjos]: - Na verdade, a Água tornou-se agora mais bela do que meu coração imaginava. Meu pensamento secreto não havia concebido o floco de neve, nem em toda a minha música estava contida a chuva que cai. Procurarei Manwë (outro anjo) para que ele e eu possamos criar melodias eternamente para teu [Deus] prazer! - E Manwë e Ulmo se aliaram desde o início; e sob todos os aspectos serviram com a máxima fidelidade aos objetivos de Deus."

A realidade, o mundo, a luta entre o bem e o mal, os objetivos, designios, desejos, vontades, tudo são declarados como parte de uma Música. A música deixa de ser tratada como apenas uma combinação de sons. Mas a ser tratada como a própria energia que promove as particulas, atomos, Leis da Fisica, a Natureza, e que serviriam de auxilio para filhos de Deus, para o seu bem ou para o seu mal (como a destruição e corrupção da musica produzida por Satanás).

Outra coisa que surpreendeu, é que até onde sei esta concepção é quase que exclusiva dos Adventistas do Sétimo Dia, através dos escritos de Ellen G. White, como na obra "Patriarcas e Profetas". Não só sobre a questão da música no Céu, mas sobre Lúcifer ser magnifico na música, além, da cobiça dele sobre a criação da Terra. Claro, algumas questões muito discordantes quanto a forma que vieram para cá, e alguns modos quanto a criação. Aliás, é quando entra mais a mitologia, colocando "elfos" junto a homens. Mas como Lewis estamos tratando de uma fantasia. Aliás, muitas coisas de Lewis me deu a mesma impressão. Será que ambos conheciam a literatura dos adventistas? Minha amiga teve a mesma impressão quanto a Lewis.

Bem, irei me deter por aqui, para ainda não viajar mais na maionese, antes que a pimenta reclame.

2 comentários:

joêzer disse...

Sua interpretação de Tolkien é quase exclusiva, tamanha é a massa da igreja que diz que esse autor corrompe a "sã doutrina". Seria preconceito, ignorância, má vontade? (aliás, o preconceito é par da ignorância)
Mas você se saiu bem.
A editora Ultimato tem um livro sobre Tolkien e o cristianismo.
Abraço

Evandro Costa de Oliveira disse...

Joêzer. Desculpe-me, mas sã doutrina? O livro de Tolkien não é doutrinário, é uma literatura ficticia. Não tem nenhum foco doutrinário, diferente do Lewis em Narnia. Logo, dizer que o cara "corrompe" a doutrina, creio ser um absurdo, pois ele não está tratando ou falando de doutrina. Comparação sem pé nem cabeça esta.