12 janeiro 2017

Como Economizar Gasolina ou Álcool (Combustível)

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Nas últimas semanas, coloquei em prova um antigo sonho: conseguir o máximo de rendimento km/L no carro. Chegou as férias de fim de ano, o trânsito ficou leve na cidade e fui para a prática. Segue os resultados desta experiência:

Modelo do carro: VW Polo 1.6 Hatch 2008 (Manual)
Rendimento Médio (Cidade e Estrada): 8 Km/L Álcool / 11,2 - 12,6 Km/L Gasolina.


Resultados da Experiência
Teste1
Trajeto: Santo André -- Itanhaem -- Santo André -- São Paulo (com trânsito severo na súbida da serra)
Distância Total: 275 Km
Consumo Total: 30 L (Álcool)
Rendimento: 9,16 Km/L
Ganho: +14,6%

Teste2
Trajeto: Santo André -- São Paulo -- Hortolândia -- São Paulo -- Santo André -- São Paulo (poucos trechos de trânsito severo)
Distância Total: 425 Km
Consumo Total: 42 L (Álcool)
Rendimento: 10,2 Km/L
Ganho: +26,5%

Aumento Médio de Tempo de Deslocamento: 30-40%.

A Técnica
Por já dirigir este carro há anos e ter feito os mesmos trajetos diversas vezes acabei por obter 2 pontos essenciais que precisamos dominar:
  • a relação motor-câmbio-embreagem-giro-aceleração-velocidade-freio;
  • e rotas-relevo-buracos-semáforos-tempo de espera-lombadas.

A ideia diretora é bem simples: "Como fazer o trajeto, no tempo mais rápido possível, acelerando o mínimo possível em baixa rotação e ter que diminuir ou parar o minimo possível." Ou seja, como desenvolver e manter uma inércia o mais otimizado possível. O que desenvolvi principalmente ao pedalar muito (bicicleta). Se o leitor andar bastante de bicicleta, vai sentir naturalmente que com o tempo irá otimizar esta técnica de modo a buscar reduzir cada vez mais o esforço e buscar o sempre 'os melhores caminhos' para tal e, se possível, num menor tempo.

Táticas usadas:
  • câmbio manual;
  • antecipar/planejar mentalmente todos os seus próximos movimentos até a próxima acelerada e 'inércia';
  • reduções na embreagem, ou curtas freadas, para chegar num semáforo quando abrir para o verde, na 2a ou 3a marcha e acima de 15 km/h;
  • não forçar aceleradas;
  • buscar manter pelo menos na 3a marcha nas mínimas;
  • não acelerar/aumentar a velocidade acelerando nas descidas longas;
  • se observar lombada a frente, não acelerar mais, mas deixar a inércia e reduzindo aos poucos até chegar na lombada e retomar sempre de 2a (se não for subida);
  • se parar na subida, sempre segurar e sair no freio de mão;
  • nas "descidas" (principal fator para uma região montanhosa) acelerar bem para já entrar com velocidade na subida a frente para não ter que acelerar ou acelerar o mínimo possível na subida (deixar inércia, mas tentar manter uma rotação baixa se cair muito);
  • em caminhos de descida, deixar a inércia e gravidade comandar; às vezes, até acelerar antes ou início da descida para pegar velocidade e depois deixar indo, controlando na embreagem/câmbio (com pequenas aceleradas para manter velocidade), e deixar indo, até chegar uns 30-40 km/h até voltar a acelerar;
  • fugir dos horários de pico e trânsito a todo custo;
  • nos semáforos longos (que você sabe que demora mais de 30s) e que você pegou ao entrar no vermelho, desligue o carro; [o mesmo vale para filas de trânsito que você percebe que irá demorar para andar.]
  • buscar por caminhos com mínimo de semáforos, lombadas e valas possível;
  • buscar uma rota de subidas rápidas e curtas, mas de trajeto predominante de descida (com este mais longo);
  • em alguns momentos desengate (na banguela), principalmente para ultrapassar cristas de morros, lombadas e valas. Ou, na subida, quando se está chegando numa lombada ou semáforo; [na descida ou trechos retos, o recomendado é sempre estar engatado.];
  • Ter o mantra de que: "Frear significa que você precisou eliminar uma energia em excesso. E energia vem da combustão de combustível ou gravidade. Quanto menos frear, menos combustível está jogando fora."
Ao se fazer estas dicas, você verá como as lombadas e valetas se tornam especialmente irritantes.

'Economia' Entre Aspas
O leitor tem que estar consciente de algumas coisas:
  • Se você trabalhou vários meses seguidos e pegou 2 dias para folgar e irá realizar uma longa viagem de 5 horas para ir e mais 5 horas para voltar. Aumentando em 40% o tempo de deslocamento para economizar; não faz sentido aumentar em quase +4h seu tempo total de viagem (ida+volta), a menos se seu objetivo no fim de semana era 'curtir uma estrada'. Se seu objetivo é render seu tempo com outras atividades e gastos, é melhor otimizar para tentar diminuir o tempo do percurso.
  • Quanto vale sua hora? Se você tem um salário fixo, você pode fazer a simples conta: Salário dividido por horas trabalhas. E você tem o valor da sua hora. Exemplo: Salário de R$ 4.000, Horas Trabalhadas = 200horas --> 4000/200 = 20 Reais/Hora. Ou seja, se a sua economia de combustivel não te lhe render algo que compense 20 Reias/Hora, você perdeu tempo e dinheiro.
  • Outra métrica é calcular a hora do seu dia total. Ou seja, se seu salário é de 4000. Num mês de 30 dias, cada hora sua vale: R$ 5,55/hora. Ou seja, se você dormir 8 horas por dia, você consumiu R$ 1.333,33 dormindo.
  • A métrica que mais gosto é a que mensura suas horas úteis, ou seja, o período médio de 14 horas (se for bem otimizado). Se você ganha 4000, sua hora útil vale R$ 8,33.
Estas métricas são importantes para você ter a seguinte noção: "Quanto tempo tive que trabalhar para poder usufruir deste tempo/horas?"

Como avaliar?
Se você rodar 500 KM num modo mais econômico que te fez economizar 25% de combustível (como a façanha que consegui), mas que te fez gastar 8 horas a mais de tempo no total. Então é simples a conta:
Economia com Combustível em 500km = R$ 24,81
Gasto de Horas Úteis A Mais nos 500km = 8h x R$ 8,33 = 66,64

Saldo = R$ -41,83 (saiu no prejuízo: perdeu tempo e dinheiro).

No mesmo caso, se você ganhar 1000 de salário. Sua hora útil = R$ 2,08


Saldo = R$ +8,14 (conseguiu economizar dinheiro)


Fazendo este tipo de conta, fica mais fácil entender porque grandes empresários e pessoas ricas, 'investem' em avião particular, helicópteros, estadias em hotéis etc. Pois o tempo útil deles vale muito mais do que estes custos extras para aumentar sua economia de tempo.

07 janeiro 2017

Perfeição de Caráter, Perfeccionismo: Caráter Perfeito

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No estudo anterior, conversamos um pouco sobre a Natureza Pecaminosa. Agora iremos avançar para um dos temas ou pontos mais polêmicos. Antes uma nota especial para contextualizar.


Nota Introdutória

A Teologia do Perfeccionismo prega algo que praticamente todas denominações religiosas pregam: 'o cristão deve buscar/produzir/viver um caráter perfeito como o de Cristo'. Até aí tudo bem. O grande problema em que surge infindáveis discussões se decorre quanto as definições/conotações, o entorno, aplicação e desenvolvimento das seguintes perguntas:

  • O que é caráter?
  • O que é perfeito?
  • O que é 'caráter perfeito'?
  • Como era o caráter perfeito de Cristo?
  • Como buscamos isto?
  • Como obtemos isto?
Eu acrescentaria uma outra pergunta, que em nenhum momento observei ninguém fazendo:
  • Até onde devemos nos preocupar com isto?
No decorrer da História Cristã, desde os anos 400 d.C, e olha lá, já surgiam cristãos influentes com uma resposta para estas perguntas, do tipo (1, 3, 5, 8, 1, 3) e então desenvolviam uma teologia em cima disso e saia em ensinando. Foram, através desta, dentre outras, respostas - como (2, 0, 3, 2, 9, 9) - que se introduziu várias ideias e heresias absurdas da fé cristã.

O principal componente das teologias consideradas perfeccionista é a sua semelhança/aproximação com o Legalismo dos escribas e fariseus. Isto não quer dizer que concorde com as coisas que tais diziam que o homem devia fazer. Mas concordavam com os escribas e fariseus quanto a ideia mais primordial do tipo: "O que eu devo fazer para ser salvo?", "Que ações, atos, obras, posso fazer para ser salvo?". Ou seja, há sempre um certo tipo de apelo, ou reconhecimento, ou tendência no homem olhar para si mesmo como um instrumento ou operador da própria salvação. O lado da Graça, a ação de Jesus, tem quase que um sentido de 'segundo plano', ou algo no tipo: "Deus te dá força e os recursos para trabalhar e conseguir isso. Então agora faça. É com você. É sua parte."

Quando comecemos a mergulhar o pensamento nesta esfera de pensamento, não é difícil entender como que a Igreja Primitiva, séculos depois, pregava a Venda de Indulgências, a Autoflagelação, u mesmo '20 aves Maria' para um pecado ser perdoado, dentre diversos outros tipos de salvação pelas obras. Também, nos lança um olhar para observar como a Igreja Católica estava profundamente mergulhada em concepções legalistas; de modo que foi totalmente chocante as Teses de Lutero sobre Justificação Pela Fé.


Fé e Obras

Ainda assim, séculos após, nos dias de hoje, ainda há muitos que creem que fé e obras, dão na mesma. Pois, afinal, não conseguem 'ver' a Fé, mas conseguem ver 'as obras'... então acabam dando a credibilidade de que a única maneira de se garantir que você está exercendo a fé é através do reconhecimento das obras. Uma evidente distorção das palavras de Tiago em que primeiro deixou por expresso que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, e que somos salvos pela fé e não pela obras. Mas deixou como um adentro de que a fé sem obras é morta.

A melhor analogia que imaginei para isso é um Nadador. A Fé faz de você um nadador. Você é um nadador. Inclusive quando não está nadando. O que Tiago quis dizer é que se você é um nadador, mas há 50 anos não entrou numa piscina... tem alguma coisa de errado. Será que você realmente é num Nadador? Os Perfeccionistas/Legalistas colocam então que, o único modo de saber e garantir isso é procurar estar sempre nadando, e cada vez nadando mais perfeitamente.

Uma adição a isto é que alguns perfeccionistas - descobri que não são todos - que seguem uma linha de pensamento mais arminiana acreditam que só conseguimos Nadar porque na verdade Deus coloca boias especiais em nós, assim como Jesus colocou nos pés de Pedro, impedindo-o de afundar. Mas que nós devemos desenvolver nossas habilidades natatórias até chegar ao ponto de não precisar mais destas boias especiais, nós não mais afundamos por conta própria.

Isto é uma simples ilustração cheia de poréns. Mas serve de start nesta conversa.


O que é caráter?

Aqui está um o primeiro problema. A Bíblia não tem uma resposta. Em nenhum lugar da Bíblia encontramos um texto dizendo: "caráter [dois pontos] é". Na verdade, uma investigação mais aprofundada mostrará que muitos textos que hoje são traduzidos com a palavra 'caráter', nas línguas raízes usava-se outras palavras, ou junções de palavras. Ou por vezes, havia mais de uma palavras que trazia esta ideia usado em contextos diferentes. Os gregos introduziram muitas ideias profundas sobre a ideia de caráter que hoje o Ocidente mais se desenvolveu em cima. Como 'caráter' sendo algo no entorno da ideia de 'característica'. Mais profundo ainda, como algo 'gravado', 'qualidade que define', 'símbolo da alma'.

Fazendo uma super simplificação aqui, vamos definir caráter como 'uma marca da qualidade dos seus pensamentos, ações e gestos'. É ainda assim, uma definição tremendamente errada ao meu ver. Há diversos autores que fazem as suas definições.

Segundo o livro Face to Face With the Real Gospel (Face a Face com o Verdadeiro Evangelho) de Dennis E. Priebe, que estou usando (como nos demais estudos), como um tipo de referência para uma das linhas de pnesamento perfeccionista... caráter é definido como um Escolhedor. Isto é, se você escolher fazer A ou B, ou se você escolhe não fazer A nem B, ou escolher fazer A e B. É basicamente isto. Daí, as consequências naturais desta definição puramente axiomática é:
  • Se Escolhedor escolhe algo que é errado/pecado, então Caráter = Falho;
  • Se Escolhedor escolhe algo que é certo então Caráter = Correto.
Apesar da palavra 'caráter' na maioria das linhas perfeccionistas não ser a palavra ou o ponto em questão, estou falando dela, por ser o grande ponto polêmico no caso dos grupos adventistas envolvidos com esta linha de teologia. Pois tais se deparam com esta problemática frequentemente nos escritos de Ellen G. White por esta usar - como um vício de linguagem - a palavra caráter frequentemente, para descrever muitas coisas e com diversas conotações. Na maioria das vezes, num sentido semelhante com Moral.

E aqui questiono o leitor. O que é caráter? Escreva com as suas próprias palavras.
Ai vai uma ajudinha (ou para atrapalhar), segue uma lista do site Sinônimos:
  1. Traços psicológicos: índole, temperamento, natureza, personalidade, feitio, gênio, jeito, característica, compleição, fibra, entranhas, têmpera.
  2. Qualidade específica: especificidade, peculiaridade, particularidade, cunho, marca, traço, distintivo, individualidade, especialidade, originalidade, qualidade, feição, atributo, propriedade, jaez, sabor.
  3. Firmeza moral: hombridade, honestidade, dignidade, integridade, probidade, honradez, respeitabilidade, retidão, seriedade, decência, decoro, presença, firmeza, determinação, resolução.
  4. Caráter tipográfico: sinal, letra, caracteres, tipo, bloco, figura, número.
Bem, veja que provavelmente, a maioria dos usos que queremos usar gira em torno de algum tipo de arranjo entre as ideias 1, 2 e 3. (que já são muitas... uma combinação matemática destes números de ideias, nos trariam milhares de significados únicos). Mas então, como avaliar os usos mais 'gerais' e 'primordiais' usados por Ellen G. White? Ou seja, o que, geralmente, na maioria das vezes, Ellen G. White, tinha em mente, quando usava a palavra 'caráter'? Fiz uma longa busca, e este foi a melhor resposta que encontrei do que seria mais próximo de uma definição que ela usa para 'caráter':

"... o caráter se revela não por boas ou más ações ocasionais, mas pela tendência das palavras e atos costumeiros" Ellen G. White, Caminho a Cristo, 57,


Caráter = Vetor 'Diretor'

Vetor diretor é uma ideia matemática desenvolvida principalmente por René Descartes. Até então, o homem (incluindo matemático), apenas conseguiam conceber o mundo a partir de uma Geometria Cartesiana, entrelaçada as ideias mais elementares de Euclides, encontrados numa das mais famosas obras do mundo, que só concorre com a Bíblia: Os Elementos, de Euclides. Escrita em torno de 300 A.C. Até então, um Ponto A era descrito como a combinação cartesiana das referências (x, y, z) = (0, 1, 5) por exemplo. Com o Vetor, a história muda. Não estamos mais limitados apenas a esta concepção geométrica que apenas nos remete a ideia de um tabuleiro de xadrez. O vetor, conseguimos referenciar o ponto, e não só isso, mas saber o seu 'tamanho' (norma), direção e sentido. Ou seja é um tipo de 'objeto orientado'.



O gráfico acima seria uma representação visual de um vetor do Ponto A, definido pelas referências (a, b) ou (x, y). Repare que ele tem uma um tamanho grande em laranja, uma orientação na diagonal e apontando para nordeste.

Esta ideia de vetor, é amplamente usado na Matemática e suas ferramentas. Logo também é usado por muitas ciências, como no exemplo abaixo.


Matematicamente, vetor diretor tem uma outra ideia da que irei introduzir agora. Pensemos no vetor diretor como um vetor que manda na coisa. Ou seja, no mapa acima, se você colocar uma bexiga num ponto A, onde essa bexiga irá parar? Trace uma linha reta entre o ponto A e este ponto X, esta trajetória ou orientação, ou que na matemática seria a soma resultante dos vetores, ou vetor resultante, seria o que chamo de Vetor Diretor. 

No texto acima, Ellen G. White declara uma ideia semelhante. O caráter é como um Vetor Diretor. O caráter não é julgado/avaliado/caracterizado pelas variações, ou por ir mais para um lado, depois mais para o outro. Mas para o resultado final para onde está indo.
Veja, o mapa abaixo da travessia que Amir Klink:


Amir Klink viajou de Luderitz (Namíbia) até Salvador (Bahia). O Vetor Diretor no caso seria a flecha rosa enorme. Mas o caminho que ele de fato fez foi o de linha vermelha. Ou seja, ele deu uma enorme volta. Mas, no caso era o melhor caminho por n motivos (alguns até geométricos, devido a planificação do Globo).

O que Ellen G. White quis dizer em suma no texto acima é que, um olhar simplório e legalista, olharia para Amir Klink logo nos primeiros quilômetros e diria: "Amir, você está indo para direção errada. Você está cometendo um grande erro." E, logo, julgaria que "Este cara tem um péssimo caráter. Vive insistindo em ir para outra direção." Não devemos olhar com estes mesmos olhos de quem olha o exterior das pessoas e quer apontar o dedo julgá-la. Devemos olhar para o Vetor Diretor que está sendo formado com o passar do tempo. E, sobretudo, o final. E repare que, se tentarmos ser precoces e avaliar os vetores intermediários - durante o caminho - em verde claro, julgaríamos pior ainda. Diríamos que o caráter de Amir Klink não é um direcionado para Salvador na Bahia, mas para New York, nos EUA.

Ainda mais, a curva/trajetória que cada um de nós fazemos na nossa caminhada espiritual é distinta e diferente uma do outro. Jesus é o nosso maior Vetor Diretor que buscamos seguir e nos orientar. Mas a rota, na pratica, nunca é como imaginávamos que de fato seria. Sempre há alguns 'desvios'.

Agora, observando novamente o trajeto de Amir Klink, como uma analogia ao caráter de uma pessoa pergunto: Amir Klink fez um trajeto perfeito?


Caráter Perfeito

Alguns, erroneamente, diriam que Amir Klink apenas obteve um caráter perfeito ao chegar em Salvador-BA. Quando de fato surge o Vetor Diretor rosa gigante. Mas a grande verdade, no sentido espiritual que encontramos na Bíblia e no Espírito Profecia. É que em todo o momento deste caminho, ou pelo menos na maior parte dele, foi perfeito.

Se você ler o livro dele, verá que de fato houve diversas vezes que ele cometeu vários erros. E quase morreu algumas vezes. Ou arrastou um trator, ao invés de surfar pelas ondas, por ter negligenciado uma limpeza do casco. E até se desviou um pouco da rota uma vez ou outra; e houve dias que nem conseguiu levantar da cama, ou, devidos as condições exteriores, não ter condição alguma de fazer coisa alguma, nem mesmo medir e saber onde estava precisamente; ou para onde estava indo. Por vezes, teve que esperar dias para saber qual estava sendo seu 'vetor diretor', se estava mantendo a direção certa, ou próximo dela, ou se afastando muito. E a conta matemática é simples, se a soma de todos os vetores não for perfeita, não adianta, ele não teria parado em Salvador na Bahia por nada.

Outro ponto importante sobre perfeição de caráter seria esta 'navegação'. O Legalismo e Perfeccionismo diz que Deus te dá braços super musculosos para atravessar o mar. Isto eles chamam de fé, ou o poder concedido pela graça. E você tem este poder de em cada escolha remar rumo a Salvador (o nome foi proposital). Pois Jesus é apenas o Modelo, a direção que você deve seguir... tem uma trilha de sangue no mar, que basta seguir o Modelo que você chega lá. E na visão legalista, resumidamente é isto. Um dia você chega lá. Contanto que não vacile em usar o barco, os remos e os braços que Jesus te deu.

Obs: Algumas linhas de Perfeccionismo diz que Jesus também vai te perdoando no caminho. Isto é, apenas apagando seu trajeto errado no passado, para depois não te acusar/dizer/cobrar: "Olha você errou aquele caminho. Não merece estar aqui."

Quando na verdade. A História é muito diferente. No modelo mais profundo que encontramos na Bíblia e no Espírito de Profecia, Jesus é quem constrói o barco. Jesus é quem te coloca no barco. Jesus é quem te faz flutuar. Jesus é quem põe os remos nas suas mãos. Jesus é quem te faz remar. Jesus é quem cuida e promove a sua direção. E, muito mais do que isso. Amir Klink escolheu este trajeto vermelho, sobretudo por um motivo bem especial: "Se fosse depender dos seus braços e remadas. Ele nunca chegaria no Brasil." Seria impossível. Ele precisou sobretudo das marés.

Foi a maré que levou Amir da África até o Brasil.O trabalho que o braço dele foi sobretudo para se manter alinhado devidamente com as marés, ou incrementando um tanto X de velocidade. Pois, afinal, mesmo que ele ficasse o dia todo remando, uma hora cansaria e precisaria dormir por diversas horas. O que seria o suficiente para todo o trabalho ser em vão. Do mesmo modo, Jesus também é a maré que nos leva da África até Salvador. Mais do que isso, Ele governa os mares.

Mesmo que às vezes por 'indisposição espiritual' nossa deixemos de remar como Ele instruiu. Ele tem infinitos modos de corrigir isto, o percurso, sem o menor esforço. Isto mesmo, os méritos de você chegar até o destino são absolutamente de Jesus. Nenhuma remada sua tem nenhum tipo de mérito. 


Por que alguns não alcançam Salvador?

Ao mesmo tempo, há um enorme Cruzeiro, cheias de mulheres lindas e peladas, com música alta, com a melhor comida e música navegando ao lado de Amir. E o capitão do navio: "Larga disso Amir. Vem aqui pro meu navio. É muito mais divertido. E eu te levo sem você se preocupar para os melhores portos e águas deste mundo." Bem, há muitos Amirs que desistem do pequeno barco a remo, e dos dias e dias de remadas. Ou, por vezes, o capitão do navio, ou até mesmo outros remadores, ficam criticando, acusando, e infernizando tanto a vida de Amir, que num momento de raiva ou depressão ele acaba escolhendo desistir. Ou as vezes, tenta remar devolta para Luderitz (África); e só consegue voltar, não pelo próprio esforço e remadas. Mas porque Jesus o permite de exercer sua escolha e dá a ordem para a Maré (ok... ele insiste que quer voltar para lá) parar. E aí vem o capitão do navio e dá uma carona para ele para Luderitz.

É apenas uma analogia. Mas pense bem nisso. E nas ideias aqui. E compare com as ideias perfeccionistas. Veja que há grande teor de legalismo nelas.

Reparei que uma das maiores indagações/preocupações de algumas das pessoas que seguem esta linha de pensamento teológico são ansiedades e perguntas do tipo:

  • Como sei que estou a salvo?
  • Como sei que estarei entre os que chegarão a Salvador?
  • Como posso saber que não sou um dos que não chegaram em Salvador?
  • Como diferenciar o Joio do Trigo?
  • Como sei se o outro está andando em pecado ou em conformidade com a Lei?
  • Como sei se sou santo?
  • Como sei se meu caráter está perfeito?
  • Reproduzi o caráter de Cristo em minha vida?
A ansiedade se torna tamanha, e a "?" é tão forte e visível em suas mentes. Que a única coisa que consegue lhes sustentar é confessarem para si mesmo infinitas vezes: "Isto sim é perfeição cristão. Eu estou sendo perfeito.", "Ainda não sou perfeito. Mas estou no caminho. To chegando lá. Uma hora chego.", e para isto, tem que ficar sempre se confirmando "Esta teologia é verdadeira. Eu estou certo. 'Eles' estão errados. Estou cooperando com Deus para que através da graça de Jesus e das minhas boas obras que Ele está promovendo através de mim, eu serei salvo.", "Eu sim. Eles não.", Eu estou certo. Eles errado."

Com o tempo, isto vai se tornando tão estressante e desgastante, que a coisa muda de categoria. O perfeccionista começa a dizer a si mesmo: "Isto só pode estar certo. Tem que estar certo.", "Não é possível que estou me sacrificando tanto a toa. Não. Deus há de compensar. De aceitar meu esforço.". O tempo continua passando, e a pessoa chega num dos piores níveis, ela não tolerá que ninguém ouse questionar o que ela está fazendo e vivendo. As respostas e explicações passam a ser cada vez mais curtas, diretas, até mesmo 'ríspidas', intolerantes. Passam a acusar 'os outros'. Ou seja, precisam provar para si mesmo que a outra religião é que está errada, que a crença dos outros é que está errada. Que os outros é que estão no caminho errado. Que a igreja dos outros é que 'adulterou', se desviou. Passa a quase que conviver tão somente com pessoas ou linha de pessoas com a mesma crença... só aceita conversar com elas... se encorajam a acreditar que estão fazendo a coisa certa. Precisam insistir tanto, de modo que temas perfeccionistas como: 'caráter perfeito', 'natureza pecaminosa', 'natureza de Jesus', 'vencer pecados', 'impecabilidade', 'tenho que estar assim e assado para ser salvo', 'texto 1', 'texto 2' e texto 3'.... passam a ser quase que 99% do que eles falam, do que pensam, do que falam e refalam para os outros. É quase que um teclado de 1 tecla só. Sendo que a Bíblia e o Espirito de Profecia, numa simples contabilidade, não desprende nem 10% nestes temas.. que por vezes ficam quase esquecidos.


Uma Norma Ainda Mais Elevada de Perfeição

Eu tive uma grande surpresa quando reparei que o que os perfeccionistas modernas alegam é uma norma muito baixa de perfeição. Diferente de algumas outras teologias passadas, eles adaptaram ao perceber que 'algumas coisas' não dá para vencer. Então fizeram uma separação, de modo que quase que dizem: "O que, aqui e agora, eu consigo mentalmente dizer com 100% de confiança: isso é errado e não vou fazer." Então isto sim é a perfeição que me cabe. O resto é resto. O resto é "natureza pecaminosa", é algo sobre qual não tenho controle, não tenho o que pensar, decidir, escolher, discernir, então não me cabe responsabilidade nem culpa alguma. Me pareceu muito 'conveniente'.

Além disso, muitos deles buscaram se isolar socialmente de alguma maneira. Alguns até mesmo foram para um campo, por motivos estranhos, pois parece que buscam 'distanciamento social', 'das pessoas e mundo caido', ou buscando algum tipo de alienação. Para que, assim, sejam cada vez o minimo afetadas possíveis pelas variáveis exteriores; e possam controlar cada vez mais seu 'pequeno conjunto de parâmetros' e coisas. Com uma preocupação primária de que "Assim é possível aperfeiçoar mais meu caráter. É quase impossível naquela loucura urbana, com um monte de gente interferindo e trazendo problemas novos o tempo todo." [quase que escapa uma declaração contraditória a ideia que podem ser perfeitos tanto no meio da Praça da Sé no rush, quanto no meio dos pinguins da Geórgia.

É muito estranho. Este tipo de isolamento, parece produzir efeitos de narcisismo, de algum tipo de centrismo tão forte em si mesmo. Uma preocupação tão intensa na própria vida, na própria salvação, que me soa muito estranho.

A concepção de caráter perfeito como um conjunto minimizado de restrições e obrigações voltadas para 'promoção' (em algum aspecto) da própria salvação me parece uma ideia muito 'pequena'. Quando vejo os heróis da fé, na Bíblia, em Hebreus 11, vejo um contraste. Vejo acima de tudo, bravura. Pessoas não fugindo da luta. Não focadas em si. Não temendo se vão ou não pecar. Mas foram pessoas que foram lá e fizeram. No meu ver, as maiores características de caráter perfeito claramente indicados na Bíblia, não são as restrições, proibições, os 'não's... , e, mais longe de tudo, a ideia de 'não pequei hoje'. Antes, são as palavras do próprio Jesus que diz:
  • "Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros" João 13:35
  • "Não existe maior amor do que este: de alguém dar a própria vida por causa dos seus amigos." João 15:13
E veja o que Moisés disse:
  • "Agora, pois, perdoa o seu pecado; se não, risca-me, peço-te, do teu livro, que tens escrito." Êxodo 32:32
Uma coisa é um crente, cristão, dar a vida para salvar um amigo ímpio, pensando, ou com fé que mesmo morrendo agora, ressuscitará ainda para a vida eterna junto deste amigo, quem sabe. Outra coisa é o que Moisés fez. Moisés explicitamente rogou e pediu para Deus que trocasse a sua vida eterna para que aquele povo ímpio e idólatra sobrevivesse.

Podem me dizer o que for. Esta para mim é a maior norma de perfeição que eu conheço em toda as Escrituras. É quando tiramos os olhos do 'eu'. No se 'eu' sei se estou salvo ou perfeito ou não. Se serei salvo ou se estarei entre os salvos. É tirar os olhos em querer saber distinguir quem serão os que não escolherão a vida eterna. É esquecer totalmente desta história de justiça própria, impecabilidade, se ainda tenho ou não algum pecado. Ou qualquer tipo de pensamento e preocupação legalista/farisaica, pensando nas minhas ações e no meu estado e situação no cartório. É literalmente esquecer do 'eu' e deixar de me preocupar com ele. É o tanto faz se serei ou não salvo. Sim, sobretudo, é ter um coração profundamente apaixonado pelo próximo, olhando para Cristo, fazendo de tudo para salvá-los... oferecendo até a própria vida eterna se for possível no lugar. Independente se o outro acredita ou não, ou se o outro faz coisas que abomino. Eu, particularmente, vejo como o maior exemplo e lição, na Palavra de Deus, de perfeição de caráter, do caráter de Cristo, nesta passagem de Êxodo 32:32. É a plena misericórdia pelo próximo. O 'eu' (inclusive o 'meu caráter')... espero nem pensar nessas palavras.

Pense nisso.
Pense profundamente nisso.


O Oposto do Caráter Perfeito

Quando descobri que não há uma única doutrina sobre perfeição de caráter, percebi que não poderia me basear única no livro do Priebe para entender o que pensam. E sai perguntando para todas as pessoas que conheço que compartilham deste tipo de pensamento. E fui perguntando e perguntando. A fim de entender profundamente o que pensam.
Bem, para a minha surpresa, alguns deles ficaram irritados de eu fazer tantas perguntas. Sobretudo as perguntas de como eles lidavam com as implicações de suas afirmações [talvez porque não pensaram até eu ter perguntado].
Um certo rapaz, no meio das perguntas, disse em certo momento [sem eu ter falado nada sobre isso]: "Se não existe perfeição de caráter, como poderei distinguir que serão os falsos crentes que irão sofrer a morte eterna e os salvos?" [Repare no tipo de preocupação que saiu espontaneamente da boca. E afirmo que não estava no contexto da conversa.]

Daí eu respondi com o texto de João 13:35 e colocando que no meu ver, uma pessoa com tal caráter perfeito não irá se preocupar primeiramente se será salva ou não. Não vai dar muita bola para isso. Mas antes se preocupará mais com que o outro, o próximo seja salvo. Nem que isto custe a própria salvação. Em seguida, tal respondeu que para ele não fazia o menor sentido isto. Não faz sentido uma pessoa querer deixar de ser salva. [Pense nisso.] Após, lembrei-o deste caso de Moisés. Ele não mais se manifestou a respeito e apagou sua resposta anterior.

Em outro momento, durante as centenas de perguntas. A pessoa quase fez uma afirmação escancarada de legalismo. Então apenas fiz uma pergunta para entender mais precisamente a resposta dele. Bem, e não respondeu mais [talvez percebeu que não saberia responder sem usar de ideias legalista.] E, outra pessoa, que devia estar acompanhando a conversa, solta, do nada, um texto 'agressivo', 'impaciente' e 'acusador' a minha pessoa - implicitamente. Afirmo que em nenhum momento disse que eles estavam errados. Apenas questionava e pergunta sobre o que eles diziam. [Ok, um pouco de método socrático.] Veja:


Não estou aqui para acusá-los, muito menos expô-los (até censurei a id), não disse nem digo a que movimento pertencem; apenas digo que são dissidentes adventistas do sétimo dia, na linha de frente da propagação de ideais perfeccionistas pela internet e de combate aos pré-lapsarianos e adventistas institucionais.

Coloco isto para o leitor meditar e pensar. Tire as próprias conclusões. Questione-se a si mesmo. Eu gosto de fazer perguntas, recomendo que também faça perguntas sinceras para si e suas crenças. E espero que possa ter entendido um pouco mais sobre o que é, e o que não é caráter perfeito. E recomendo buscar, sobretudo na Bíblia, as respostas.

Sei que todos argumentos são insuficientes; pois depende da disposição do leitor. Se posso dar um conselho: Sai dessa. Tente ver o outro lado da moeda e depois compare.
Abra a sua Bíblia, deixe um pouco os livros de Ellen G. White de lado; faça uma profunda avaliação de si, dessas crenças, se se sustentam na Palavra, e nos frutos que estão sendo produzidos na vida dos outros e no seu amor e ação pelos 'ímpios'.
Leia os artigos abaixo. São excelentes!

Abraços.


Indicações Extras (Artigos de alto nível)







Próximos estudos:

13 dezembro 2016

Perfeição de Caráter, Perfeccionismo: A Natureza Pecaminosa

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Dando continuidade a análise bem franca que faço sem me levar por ninguém (na verdade, até agora, apenas conversei este assunto com minha noiva), por pesquisas, estudos e reflexões pessoais. Conversaremos sobre a questão da Natureza Pecaminosa Humana.

Vou-me basear nas ideias do Dennis E. Priebe (do Pacific Union Conferecen, Amazing Facts com mestrado em teologia na Andrews University) expressas no seu livro Face to Face With The Real Gospel ("Face a Face Com o Verdadeiro Evangelho") que ganhei do meu simpático amigo Mauro Carnassale - quando pude conhecer sua casa que é um verdadeiro refugio de muita paz e reflexão. Por que este livro? Bem, creio que ele resume bem o ponto de vista e as bases teológicas desta questão mais 'perfeccionista' sobre o caráter, digamos assim.

Antes deixo por expresso que não estou apresentando "o que eu acredito", ou "como eu explico isto", apenas estou avaliando e questionando esta ideia apresentada pelo Perfeccionismo e pelo Priebe. Ao mesmo tempo, não estou acusando-o de mentiroso, tampouco querendo inferiorizar de algum modo ele com relação a mim. Apenas estou raciocinando o que ele falou e sua ideia. Para mim, seria um momento muito gostoso e amistoso poder sentar com ele um dia para conversar sobre isso; quem dera, pudesse eu contribuir para seu entendimento.


Pontos Centrais
Existem alguns pontos centrais neste livro, alguns irei tratar posteriormente em outros post. Um dos pontos centrais e principais. (Digo que é muito mais do que 'apenas importante', é essencial.) Esta linha de raciocínio tem por fundamento a ideia de fazer uma distinção entre três coisas:
  • Natureza pecaminosa
  • Caráter pecaminoso
  • Perfeição absoluta
Na página 86 há um diagrama que diz basicamente que:
  1. todo ser humano nasce com uma natureza pecaminosa e esta é imutável, não está no nosso controle, não há decisões humanas nesta área e que ela só vai ser mudada na Segunda Vinda de Jesus, quando, num abrir e piscar de olhos [Uma referência, não escrita no livro, à 1 Coríntios 15:51-53] será removido esta natureza pecaminosa e passaremos a ter uma natureza perfeita, isto é, uma natureza impecável;
  2. separadamente, existe as nossas "escolhas". Toda vez que escolhemos pelo pecado, somos culpados, e nosso caráter não é perfeito. Nas entrelinhas, diz que o verbo 'escolher' e seus primos são o nosso caráter. E que na primeira vinda de Jesus, em sua morte na Cruz, Jesus venceu esta condição [a do caráter/escolha]. Ou seja, como isto lida diretamente com o nosso 'poder de escolha/decisão', então simplesmente podemos não escolher pecar. Mais do que isso. Um verdadeiro cristão, que submeteu a sua vontade a Jesus, vai submeter sua vontade/escolha à Jesus. Logo, passa a ter um caráter perfeito, isto é, impecável. Jamais pecará.
  3. Deus possui um outro tipo de perfeição. O que, no livro, Priebe chama de Perfeição Absoluta. A ideia é dizer que os anjos (por exemplo) não possuem esta perfeição absoluta, pois, Lúcifer pecou. Ou seja, seria como dizer que Deus é o único que em hipótese alguma é puramente impecável.
Esta é uma síntese. Todo o restante praticamente decorre destes 'axiomas' ou 'premissas' (como preferir).

Se o Priebe está fazendo grandes definições e especulações nestas afirmações e definições explícitas e nas entrelinhas, com certeza. Mas, por sua vez, ele aplica vários recortes dos textos de Ellen G. White e alguns textos da Bíblia que parecem se encaixar com estas ideias. Não será meu objetivo 'rebater' estes textos, mas sim, propor outras perguntas, análises, implicações, consequências para com estas afirmações que talvez, Priebe entre outros não consideraram ou desconheciam. O leitor, com isso, poderá ter um contra-ponto para fazer seus próprios questionamentos e chegar nas próprias conclusões.


1. A Natureza Humana e 1 Coríntios 15:51-53
Paulo, na carta aos Coríntios, é explicito em dizer que no evento final da Volta de Jesus e pouco antes da transladação dos santos teremos nossos corpos transformados. Todavia, chamo a atenção do leitor para que leia com pura atenção, 'sem vícios' este trecho da Bíblia e responda: Onde que diz que a 'natureza pecaminosa' é quem será transformada, removida? Por uma natureza perfeita? O leitor irá reparar que a única coisa que o texto deixa explicito é que o nosso corpo passará por uma transformação no sentido de se vestir de saúde plena, sem mais uma trajetória de morte, passará a ser um corpo  "revestido de imortalidade". Nada diz sobre a natureza pecaminosa.

O que seria a natureza pecaminosa que Priebe diz que perderemos na Segunda Volta de Jesus?
"A segunda definição de perfeição é a perfeição de natureza. Nossa natureza pecaminosa será removida apenas na segunda vinda de Cristo, pois após esse grande evento não haverá mais incitamentos pecaminosos provindos do íntimo. Dessa maneira, a perfeição de natureza, que envolve a remoção da tentação interior, somente terá lugar no momento da volta de Jesus. Não podemos desfrutar da perfeição de natureza antes disso." (livro citado, p.84)

Aqui tem um dos primeiros pontos polêmicos. O autor, Dennis E. Priebe, em nenhum momento diz 'de onde vem esta ideia', 'baseada no que', quais são os textos da Bíblia ou quais os textos do Espírito de Profecia (como Ellen G. White) dizem/afirmam isto. Esta ideia central do autor salta das páginas do livro sem dar um único texto da Bíblia. É uma definição puramente arbitrária (pelo que me parece), ou que talvez esteja em algum outro texto/livro/artigo do autor que não tive conhecimento. O mais próximo de uma 'argumentação' ou 'tentativa de embasamento' está no começo do livro, no capítulo "O que é pecado?". Porém, neste capítulo, é nebuluso, tão quão; não deixa nada claro, tampouco demonstrado por A+B. O máximo que há são alguns recortes (2-4 linhas) de citações de um tal de Emil Brunner, de João Calvino, Geoffrey Paxton e Desmond Ford. [nada de Bíblia]

Na melhor das hipóteses, a única coisa que consegue afirmar melhor é que existe uma maldição do pecado que resulta na morte física. Ou seja, o autor, ao fazer uma relação de "natureza pecaminosa" (na definição dele) com esta maldição física da morte, conclui que , como em 1 Corintios diz que o corpo será revestido de imortalidade, logo, TODO EXTRA que ele definiu/atribuiu também será 'solucionado' [digamos assim] nesta mesma transformação do corpo.

Evidentemente, o grande problema aqui do autor é o seu abuso de linguagem e de definições arbitrárias sem embasamento. Assim como, não havendo bases bem definidas para tais definições, faz relações extrapoladas sem critérios (quase que vale tudo - note, que o autor poderia fazer diversas outras extrapolações do mesmo modo). Aparentemente, uma especulação que pode ser verdadeira como falsa. E depois decorre toda uma teologia fundamentando-se nisto. Mas vejamos outros pontos que colocam um pouco em xeque esta ideia - ou que, pelo menos, "Veja, não é bem assim.".


2) Um fato que contradiz a definição e 'profecia' do autor
Como destacado acima, ao definir esta Natureza Pecaminosa, o autor disse explicitamente:
"pois após esse grande evento não haverá mais incitamentos pecaminosos provindos do íntimo. ... a remoção da tentação interior, somente terá lugar no momento da volta de Jesus. Não podemos desfrutar da perfeição de natureza antes disso."

Isto é uma falácia. Digo isto por experiência própria e pela experiência de outras pessoas. Há os mais diversos 'incitamentos pecaminosos provindos do íntimo' e 'tentações do interior' que eu e outras pessoas - provavelmente o leitor - deixara de ter ao longo do tempo. Particularmente posso destacar o desejo mais íntimo que eu já tive por sorvetes, doces, refrigerantes, criar rancor e raiva das pessoas, querer brigar etc. Inclusive, recordo-me exatamente do primeiro dia em que, após uma pessoa na escola (Ensino Médio) ter me provocado muito eu fiquei extremamente surpreso comigo mesmo de não ter tido a menor incitação, tentação, vontade, desejo de querer revidar e socar a cara da pessoa [o que seria o natural anteriormente]. Eu fiquei tão surpreso neste dia que exclamei um "Ual!" comigo mesmo e fiquei pensando nisto e agradeci a Deus.

O autor definiu explicitamente "Não podemos desfrutar" desta condição antes da volta de Jesus. Então eu pergunto: "Como foi que então eu desfrutei?" E, certamente, se você fizer uma retrospectiva perceberá que também ocorreu com você.

Talvez ele queira dizer: Mais nenhum tipo de tentação ao mesmo tempo. O autor não trata da questão que, suponha que hoje você tenha 100 tentações internas de intensidade forte; com o tempo, pode ser que até a sua morte, você esteja com 20 ou 30, de intensidade média-baixa. Isto não seria um desfruto desta bênção (em modo parcial)? Além disso, como mensurar, distinguir o que é "interno" ou não? Segundo o autor, estas tentações internas não seria perceptíveis, racionáveis, em que a pessoa pode decidir sobre tal. Note, que, desta maneira, pode ser qualquer coisa, assim como a Energia Escura da Física. Mas, se não é perceptível, raciocinável, então não notamos. Não consideramos/atribuímos nenhum valor. Dizer que o único impacto disso seria a morte é questionável.

O ponto é: Há coisas demais aqui. O fato de ter perdido muitas destas 'tentações internas' contradiz o autor? Ou não são 'internas'? Porém, se não são perceptíveis/raciocináveis/discernidas, são tentações?


3) O Problema da Tentação Humana
Evidentemente o autor tentou encontrar algum tipo de explicação, definição. Algo que pudesse ser escrito no papel que descrevesse o que é esta condição da natureza humana. Que é intrigante.

Note que Gálatas 5:17-21 é dito que a 'carne' não apenas promove uma incitação ou tentação. Na verdade, diz que promove ações, como a "cobiça" e, mais explicitamente, "as obras da carne". Ou seja, usando a própria definição do autor e relacionamento esta Natureza Pecaminosa com a Maldição do Pecado e o Corpo Pecaminoso, teríamos que tais coisas (pecados) são, na verdade, ações/práticas. E que, segundo os versos 22-25 podemos vencer todas estas ações, praticando outras no lugar. Ou seja, no lugar de prevalecer a Natureza Pecaminosa, prevalece o Espírito Santo. É uma declaração de vitória agora mesmo, antes da Volta de Jesus; o que contraria a ideia de 'apenas' na Volta de Jesus.


4) Sem Luz
Por certo, este assunto da Natureza Pecaminosa do homem é um dos assuntos mais obscuros para Priebe, pois ele foge do assunto por diversas vezes em seu livro. Nem 10% do seu livro busca tratar ou pensar sobre isto, mas se foca mais no ponto 2: o caráter perfeito.

O grande problema é que há pouquíssima informação (luz) na Bíblia e no Espírito de Profecia sobre a Natureza Pecaminosa do homem. E o autor tenta encaixar e definir coisas que são grandes mistérios não revelados e acaba entrando em terreno desconhecido e criando estas conclusões e definições equivocadas.

Por exemplo. Segundo a Bíblia, vemos uma aparente contradição. Em Tiago 1:14 diz explicitamente que somos tentados por nós mesmos ("pelo próprio mau desejo"). Mas, ao mesmo tempo, em Tiago 4:7 diz para resistirmos ao Diabo, ao invés de nós mesmos. Já Provérbios 1:10 diz que os outros podem nos tentar. E Mateus 4:1 e 1 Tessalon. 3:5 dizem que o diabo é o tentador. Ou seja, de onde procede a tentação? De nós mesmos, dos outros, ou diabo? No pecado do Éden, vemos explicitamente que Satanás foi quem tentou. Mas, primeiramente, o que tentou Eva a se afastar do marido e aproximar da árvore proibida? E Satanás, de onde veio a tentação primária?

Veja que não há uma resposta e definição simples para o que é e de onde vem esta tentação. Tentar explicar isso é erro certo (há coisas do lado de fora de onde apontamos). Repare na implicação contraditória que há quando o autor diz que no Céu, devido a passarmos a ter uma natureza impecável, será 'impossível' haver 'tentação'. Porém, por uma ideia maior que não irei desenvolver, no Céu teríamos uma condição semelhante de Adão e Eva antes do pecado, assim como dos anjos. Mas isto não resolve o mistério da 'tentação primária' qual ocorreu a Lúcifer e Eva. E é mistério dizer se esta 'nova natureza' que teremos estará impossibilitada de tal. [Se sim, nos levaria a uma contradição de que Deus ofereceu uma condição mais desprivilegiada a Lúcifer e Eva; ou que o "livre-arbítrio" foi 'modificado/mudado', que passou a ter um upgrade pois o de antes 'apresentou problema'... o que implicaria na falha do Programador.] Há um mistério envolvido no livre-arbitrio (sabemos dizer esta palavra, temos uma 'noção' desta ideia, mas não sabemos exatamente o que ela é, qual a % que conhecemos desta ideia?)

A tentação, assim como o pecado, é um mistério enorme para qual não há uma explicação. Tal não nos foi revelado. Muita coisa não foi revelada. E inferir sobre o que a Bíblia não diz, pode nos conduzir em especulações perigosas. Por vezes sutis, que até podem fazer sentido se anularmos ou eliminarmos um monte de variáveis. Mas que nos levam a construir um prédio de ideias errôneas ou misturas entre verdade e mentira.


5) O que o autor diz contradiz com Ellen G. White
Veja:
"Cristo veio ao nosso mundo porque viu que os homens haviam perdido a imagem e a natureza de Deus. Ele viu que eles tinham vagueado longe do caminho da paz e pureza, e que, se ficassem entregues a si mesmos, jamais encontrariam o caminho de volta. Ele veio com uma salvação plena e completa, para transformar nosso coração de pedra em coração de carne, para transformar nossa natureza pecaminosa na Sua semelhança, de modo que, sendo participantes da natureza divina, sejamos habilitados para as cortes celestiais." Youth´s Instructor, 9 de setembro de 1897. Pag. 26

O texto acima deixa explicito que quando Jesus veio, na Sua primeira vinda (no sentido da encarnação, morte e ressurreição), deixa claro que veio para uma "salvação plena e completa", ou seja, não era apenas sobre o caráter, ou sobre as nossas escolhas, como afirma categoricamente Priebe em seu livro. Mais do que isso, deixa, por explicito, que esta obra que Jesus fez também implica "para transformar a natureza pecaminosa na Sua semelhança". Ou seja, o que Priebe disse que só ocorreria na Segunda Volta de Jesus, White diz que Jesus já "veio com uma salvação plena e completa", tanto sobre "nosso coração de pedra" quanto para "transformar nossa natureza pecaminosa" (o que o autor disse que só ocorreria na APENAS Segunda Vinda, não na primeira).

Ellen White também coloca, por diversas vezes, que há uma união íntima, como que inseparável, entre corpo, mente e espírito. De forma geral, uma tremenda ligação entre a carne e o caráter do cristão. Logo, se a carne é fraca, isto é, com natureza pecaminosa, como o caráter poderia ser perfeito e impecável se, segundo o autor, a vitória final sobre a natureza pecaminosa só ocorreria na Volta de Jesus? Há uma antítese aqui. A única solução plausível para se afirmar o perfeccionismo de caráter antes da volta de Jesus seria o de fazer uma separação por completo entre Caráter/Mente/Espírito de um lado e 'o corpo' com sua natureza pecaminosa do outro. Todavia, esta separação causaria muitos atritos com outros textos e posições de Ellen White, inclusive como faria a Mensagem de Saúde entrar em xeque em vários pontos e razões. Talvez o leitor não tenha pensado nisso. Sugiro que faça um longo exercício mental sobre isto. E observará que algumas coisas deixam de fazer sentido se assumir esta premissa. Uma cocha de retalhos seria necessário.

Veja essa relação íntima:
"É a fragrância do mérito de Cristo que torna nossas boas obras aceitáveis a Deus, e é a graça que nos habilita a praticar as obras pelas quais Ele nos retribui. Nossas obras, em si e por si mesmas, não têm mérito algum. Quando fizemos tudo que nos era possível fazer, devemos considerar-nos servos inúteis. Não merecemos agradecimentos de Deus. Só fizemos o que era nosso dever, e nossas obras não podiam ter sido realizadas na força de nossa própria natureza pecaminosa." ME3, 200

O texto acima deixa explícito uma relação inseparável entre as nossas obras (o que incluí nossas escolhas, decisões, discernimento, feitos, ações) 100% conscientes e a nossa natureza pecaminosa. E tal é a força desta relação que a 'natureza pecaminosa' (ou algum outro tipo de imperfeição/pecaminosidade do homem) anula qualquer coisa favorável (leia-se, perfeita) de nossas obras/ações/escolhas/decisões - isto é, caráter, segundo Priebe.
Outro ponto enfatizado é que o que torna nossa obra/caráter aceitável/perfeito não é são nossas escolhas em si, mas a graça de Cristo, Seu mérito. Sendo que, em outras páginas, o autor não coloca assim a ação de Jesus, mas como que Ele concede-nos o poder para fazermos uma obra que seja, por si, aceitável, meritocrática.

Em outras palavras. O texto de Ellen G. White acima seria como uma escola em que a média para aprovação é nota 10. E o professor é Jesus que dá uma aula perfeita e todas as condições para o aluno ir bem na prova. O aluno faz a prova e tira uma nota 0 (incapaz de tirar uma outra nota - como alguns professores de Matemática que tive na Universidade); mas, o Professor considera este aluno como um aluno nota 10, e o aprova.
Do outro lado, a definição dada por Priebe é mais no sentido de que o professor Jesus, deu uma aula espetacular, forças e todas as condições para o aluno, agora, conscientemente tirar a nota 10 - mais do que isso, como se Jesus estivesse fazendo a prova por ele, ou ao seu lado passando cola. Se, o aluno tirar 10, então Jesus o aprova. Se, após toda esta intervenção de Jesus, o aluno continuar a tirar nota 0, então Jesus o reprova. [Repare como estas duas formas de pensar impactam muito a vida emocional, teológica e prática de um cristão.]
Particularmente, acredito que o verdadeiro ponto que Jesus avalia não é o previsível zero tirado na prova. Mas em como o aluno se portou com Seu professor nas aulas, nos estudos, como tentou resolver os exercícios da prova etc. Na verdade, mais intrigante do que isto. É muito misterioso o que é a Graça.


6) Como explicar a natureza de Jesus?
Não falei sobre isto aqui, pois será um dos temas a ser futuramente abordado. Mas a Natureza de Jesus Cristo é um dos principais motivos que incita estas "definições" e "conclusões" do autor deste livro, assim como grande parte da Teologia da Perfeição de Caráter Perfeccionista. Com qual tipo de natureza pecaminosa Jesus veio a este mundo? Como assim Ele foi tentado em todas as coisas e não pecou? Como assim como Ele venceu podemos, nós, vencer também? Dentre outros.

Antes, já dou uma prévia do que penso quanto a isto: É um mistério. Não tentemos pois 'definir' com palavras, ideias, lógica e linguagem humana o nascimento, o corpo, a mente, as tentações, tampouco a natureza de Jesus. Entraremos num campo misterioso, não revelado. E, se especularmos, podemos cair em conclusões equivocadas que implicaram, por efeito dominó, numa série de outras conclusões e ideias. [Veja se nos links abaixo já está disponível o estudo sobre esta questão.]


7) E as 'contradições' de Ellen G. White?
Também trataremos de um outro estudo apenas para falar sobre os preciosos textos deixados por Ellen G. White. Mas repare que, num dos textos acima que coloquei, deixa evidentemente claro que ela diz que Jesus, ao vir como Salvador neste mundo, Ele também concedeu a vitória e transformação sobre a natureza pecaminosa. Porém, EGW diz, em outros textos, por vezes, que ainda convivemos com esta tal de natureza pecaminosa. E agora?

Gosto (amo) de colocar sempre os dois lados da moeda sempre que possível. Os prós e contras. Os textos que a principio dizem A, e os textos que a principio dizem um B diferente de A. E acredito que isto deveria nos despertar a sermos mais cautelosos ainda mais para quem escreveu mais de 5.000 artigos e 49 livros. Não podemos nos resumir, 'fechar', 'concluir', 'solidificar' apenas com uma porção de 2 frases, ou 10 parágrafos, ou uns 3 ou 5 capítulos, ou 1 ou 2 livros que lemos. Ela era humana, tinha limitações de linguagem, de pensamento, comunicação e palavras, qual todos temos, que vemos evoluir/desenvolver tal habilidade ao longo de sua vida. Cuidado quando você lê um texto fabricado por alguém que tem apenas textos dizendo A, sem jamais nem sequer dizer que existe um texto dizendo B. [Pense nisso.]


8) Paradoxo do Corpo x Templo
"Ou não sabeis que vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós." (1 Coríntios 6:19). Se buscarmos uma definição tão engessada e simplória sobre a relação do nosso corpo com a natureza pecaminosa. Chegaríamos num paradoxo, uma aparente contradição: Como pode haver uma Natureza Pecaminosa, e uma propensão, ou incitação, ou tentação a pecar, onde o Espírito Santo (o próprio Deus, o próprio Jesus) habita? Segundo a Bíblia, não é apenas na definição 2 do autor (no nosso caráter, mente que decide). Vemos claramente uma relação íntima entre nosso caráter e nosso corpo, com Deus agindo e ambos - agora, no presente.

Faço uma analogia das palavras do Priebe na página 85: "Cristo dentro - pecado fora. Pecado dentro - Cristo fora." Então não poderíamos dizer "Espírito Santo habitando em vosso corpo - natureza pecaminosa fora. Natureza pecaminosa dentro - Espírito Santo fora"? Se não, por que não poderíamos afirmar isto segundo as próprias razões usadas pelo autor para fazer a afirmação primeira?


Para encerrar
Em todos os estudos sobre este tema, buscarei deixar algo para o leitor pensar. Hoje, um texto de Ellen G. White que contesta algumas implicações ao perfeccionismo, o caráter perfeito, especialmente, ao deixar claro no texto a ideia que no decorrer da vida, a gente acaba caindo (pecando) - sim, Ellen White também se incluiu.

"A negação de Cristo por parte de Pedro, a viva contenda entre Paulo e Barnabé, as falhas e fraquezas dos profetas e dos apóstolos, todas são expostas pelo Espírito Santo, que descerra o véu do coração humano. Ali se acha diante de nós a vida dos crentes, com todas as suas faltas e loucuras, o que visa uma lição a todas as gerações que os seguissem. Houvessem eles sido isentos de fraquezas, teriam sido mais que humanos, e nossa natureza pecaminosa desesperaria de atingir nunca a tal grau de excelência. Vendo, porém, onde eles lutaram e caíram, onde se animaram outra vez e venceram mediante a graça de Deus, somos animados e induzidos a avançar e passar por cima dos obstáculos que a natureza degenerada nos coloca no caminho." TS1, 438

Este texto não transmite um ideia do tipo: "pode perder algumas batalhas, mas a guerra está ganha pela graça de Deus. E isto é o que encoraja a prosseguir mesmo após as derrotas."?  Não é diferente da ideia perfeccionista de que "só se vence a guerra quando não mais perder nenhuma batalha."? Há textos que colaboram com qual ideia ou ambas?

"Homens a quem Deus favoreceu, e a quem confiou grandes responsabilidades, foram algumas vezes vencidos pela tentação, e cometeram pecado, mesmo como nós [+Ellen White], presentemente, esforçamo-nos, vacilamos, e freqüentemente caímos em erro. Sua vida, com todas as suas faltas e loucuras, estão patentes diante de nós, tanto para a nossa animação como advertência. Se eles fossem representados como estando sem faltas, nós, com a nossa natureza pecaminosa, poderíamos desesperar-nos pelos nossos erros e fracassos. Mas, vendo onde outros lutaram através de desânimos semelhantes aos nossos, onde caíram sob a tentação como o temos feito, e como todavia se reanimaram e venceram pela graça de Deus, animemo-nos em nosso esforço para alcançar a justiça. Como eles, embora algumas vezes repelidos, recuperaram o terreno, e foram abençoados por Deus, assim nós também podemos ser vencedores na força de Jesus." PP, 238


Próximos estudos:

  • Introdução: Uma História; [Ver]
  • caráter perfeito;
  • impecabilidade do homem;
  • perfeição plena antes do fechamento da Porta da Graça;
  • definições de palavras/ideias (pecado, dentre outros);
  • Ellen G. White e os 'outros textos esquecidos' sobre isso;
  • natureza e vida de Jesus.

09 dezembro 2016

Perfeição de Caráter, Perfeccionismo & Uma História

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Pretendo falar sobre um assunto que tem sido alvo de alguns grupos protestantes, evangélicos, e, especialmente, de muitos adventistas. Caso o leitor não faça parte destes, não está acostumado ou inteirado sobre Cristianismo e Bíblia, talvez não seja o post mais ideal para o leitor ler [pois é muito peculiar]; mas está convidado a ler se desejar.

Um Começo = Segunda Chance
Sou adventista do sétimo dia de berço, tomei a decisão pelo batismo aos 12 anos, porém, mais 'racionalmente consciente' (digamos assim) considero que uma grande experiência de 'conversão' e aceitação, 'de fato', da fé cristã só ocorreu por volta dos 16-17 anos. Nesta época, vivi coisas que foram incríveis e pouco comuns. Por exemplo, tinha uma fome tão tremenda de aprender e estudar a Bíblia que era comum passar mais de 4-6 horas por dia, ou entrar madrugada a dentro devorando as páginas de várias versões da Bíblia e outros livros (especialmente do chamado 'Espírito de Profecia' ou, escritos por Ellen G. White). Entre diversos outros. Acredito que numa janela de 2 anos, estudei mais profundamente a Bíblia e diversos livros, artigos dentre outros conteúdos teológicos, do que muito teólogo e da maioria dos crentes que conheço com décadas 'de cristãos'. Não digo isto para comparar e dize ser eu superior em algum sentido, quantidade também não é sinônimo de qualidade, e, a maioria da sabedoria mesmo, de fato, não se vem com 'uma base de dados grande' e sim com 'a experiência' do tempo [o que, muitos ganham de lavada de mim]. Mas confesso que estudei de um jeito... foi um fenômeno que me marcou! E eu não gostava de ler. Hoje acredito que foi um tempo que Deus usou para eu ganhar o tempo perdido e usufruir de um período da vida em que teria muito tempo livre qual não teria mais após entrar na faculdade e começar a trabalhar.

O que me levou a esta conversão? É difícil dizer. Antes achava ser mais simples, hoje há mais mistérios do que respostas em minha mente. Mas diria que foi uma consciência profunda e verdadeira de que 'não sou ninguém', 'sou um pecador terrível' e uma necessidade única e genuína de segunda chance na vida. A minha primeira grande conversa com Deus, neste sentido, foi: "Deus me de apenas uma segunda chance". Ainda numa mente imperativa de adolescente, não imaginei que eu precisava, de fato, de "n-chances" (com n tendendo ao infinito) - ainda preciso.

A Segunda Chance = Tudo ou Nada
Neste início, eu era um SUPER LEIGO a respeito da Bíblia. Confesso que, 'Jesus'?, não sabia o que significava este nome. Era apenas mais um nome/personagem da Bíblia. Logo entenda que eu não sabia e pouco compreendia muita coisa, mas eu devorava a Bíblia. O primeiro grande assunto que estudei (com muita limitação e dificuldade) foi o "Perdão". E o que eu entendi foi:

  1. Não importa o que fiz/passado, Deus perdoa, dá um 'novo start'/começo, do zero;
  2. Estaria perdoado de tais, mas colheria muitas consequências;
  3. Não poderia errar de novo;
  4. Precisava aprender a fazer tudo perfeitamente certo.
Este pensamento esteve presente no meu dia-dia. E, de algum modo, eu digo que houve um tempo em que, na minha consciência (em tal época), eu tinha obedecido tudo 100% certo/correto. Foi uma época de grandes mudanças na minha vida. Neste processo me tornei vegetariano (sou até hoje), parei de tomar derivados de leite, açucares refinados, entre diversas abnegações; parei de ver TV. Passei a ler muitos livros em pouco tempo; 90% do que ouvia era Arautos do Rei; passei a almejar/sonhar e querer ir à igreja toda semana e quase todos os dias. Criei e desenvolvi o hábito de dormir cedo (no máximo às 22h30, após ler a Bíblia e ler alguns capítulos de outros livros). Despertava sozinho entre 6-7horas. Preparava meu café da manhã, com suco natural, pão integral caseiro, e outras coisas; pegava a bicicleta ia até um parque e corria ali. 1 à 2 horas de exercícios físicos toda manhã! Voltava, tomava um banho gelado/frio (pois quente agrediria o meu corpo, não era o melhor para saúde). Depois estudava 1-3h de Bíblia e um pouco para o vestibular. Almoçava um belo prato vegetariano. Ia para o cursinho pré-vestibular e estudava. Nos intervalos entre aulas e para lanche, lia diversos textos/livros/materiais sobre saúde e costumava me retirar para algum lugar para orar. Voltava, estudava mais um pouco. Comia. E ouvindo Arautos do Rei, estudava a Bíblia, Espírito de Profecia, até então, por volta das 22h-22h30 dormia. Todos os dias. [E quantas vezes não esperei todos dormirem para poder ficar mais à vontade conversando longas horas com Deus.] - Como era bom. - Havia dias em que me sentia tão feliz que cada célula do meu corpo rejubilar de energia, alegria e paz.  Minha memória absorvia tudo com uma tremenda facilidade, era uma verdadeira esponja de decorar, absorver, assimilar e guardar. Decorava [mesmo sem querer ou me preocupar em decorar], qual livro e página estava diversas citações/versos que eu tinha na ponta da língua. Amava ajudar os outros. Era comum me pegar pensando no que podia fazer pelas pessoas. [Aqui vai informação inédita, não contada para ninguém até hoje.] Eu fiz alguns pequenos folhetos/convites/mensagens/CDs e que eu entregava para as pessoas nas ruas, ônibus, nos parques, vários amigos não cristãos; às vezes preparava lanches para dar para os moradores de rua e sentia mais profunda compaixão por eles: "eles precisão de mim". Era um ímpeto tão forte de querer levar luz para eles, ajudá-los que minha maior angústia era 'ficar parado e não fazer nada'.

Nesta época, surgiu, algumas vezes, algo que hoje chamo de 'orgulho'. Orgulho Religioso. De algum modo, eu me sentia como 'mais próximo', 'santo' - ou fazendo as coisas que Deus pedia - do que os demais. Por quê? Porque não os via fazendo, falando, etc. o mesmo; não parecia haver o mesmo ímpeto. [pelo contrário, era comum me chamarem de radical, fanático, extremista e sinônimos] 

Recordo claramente do dia em que, numa classe de estudos na Igreja, eu me dei conta que não lembrava mais a última vez em que tinha tido gases, espirrado (isto que tinha rinite alérgica hereditária), tossido, bocejado, sentido fraqueza ou qualquer sinal de saúde debilitada e, então, vi uma garota doente na igreja. Julguei  algo do tipo: "Ela está assim porque não segue os princípios de saúde que eu estou seguindo. [me incomodava ouvir o som de alguém tossindo na igreja. Eu pensava: adventista hipócrita que não segue os 8 Remédios." Até hoje luto contra um preconceito com irmãos com uma pança/barriga avantajada ou provável IMC alto. "Isto que ela é de 'muito mais tempo de igreja' e 'cantava no coral'" [o que eu pensava ser 'OOO coral das pessoas mais santas do mundo'].

Era simples, na minha mente, Deus revelou os 8 Remédios Naturais, se as pessoas seguissem perfeitamente tais, desfrutariam de plena saúde e sarariam de qualquer doença. Lembro do dia em que li o capítulo que falava sobre Enoque no livro "História da Redenção". E eu chorei, como eu chorei [sou difícil de chorar], como se pudesse sentir conta letra falando ao meu coração. Em minha mente, eu me senti na pele de Enoque e fiquei sinceramente imaginando/acreditando que eu poderia ser transladado a qualquer momento como ele fora - era meu maior desejo. Eu me perguntava o que faltava para eu ser também.

Biscoito de Maisena
Well, nem tudo são rosas. Um dia, havia um pacote de bolachas de maisena na cozinha (deixada pelo meu pai). Há mais de 8 meses eu não comia praticamente nada com 'cara de bolacha', ou de origem industrial duvidosa. Diferente de todos os demais dias, neste dia me senti na pele de Eva com a Árvore do Conhecimento. Comer ou não comer? Não estava com fome. Não precisava comer. Podia não comer. Indesculpável, mas eu escolhi comer aquele biscoito de maisena.

O biscoito de maisena foi um marco na minha vida. Pouco tempo depois eu cai na profunda consciência de que eu era um pecador. E, de repente, não sei explicar isto, mas foi como se abrissem meus olhos para observar que havia 'muitas coisas' que me convenciam de que eu era o maior pecador do mundo [não digo porquê, pois não faria o menor sentido para as pessoas que já acham um absurdo me sentir um pecador por causa de um biscoito]. E, no meu ver, eu pequei novamente pois tinha prometido que faria tudo certo com a minha segunda chance, mas eu joguei a segunda chance no lixo.

Chutar o Balde
A consequência disso foi que desisti. Chutei o balde. Não porque não gostava de querer buscar a Deus. Mas porque me sentia um hipócrita e derrotado. Me veio uma consciência tão clara que, ainda durante a minha vida, eu provavelmente iria comer este e outros pecados. E chutei o balde. Desisti. Dias/semanas depois, alguns amigos perceberam minha atitude e vieram atrás de mim, especialmente um amigo muito querido que foi primordial para eu ter 'minha segunda chance'. [Parecia o caso dos amigos de Ló.] Ele tentou me mostrar que eu não deveria agir assim, chutar o balde. Mas não adiantava, nenhum de seus argumentos me convencia. Pois em 'minha base bíblica' e do 'Espírito de Profecia' de que quem é nascido em Deus não peca, Deus torna perfeito o homem, vence o pecado e etc, que quem peca é filho do Diabo e etc. Era 8 ou 80. Não tinha esta de mais ou menos.

Para cada palavra e texto dele, eu tinha outros textos que deixavam claramente minha posição 'perfeccionista' e, mais claro ainda, de que, se eu realmente tivesse me convertido e entregado minha vida a Deus, eu nunca mais teria pecado como fiz. Logo foi tudo vão, uma mentira/fantasia de santidade e perfeição em minha mente. E, por eu ter pecado e viver em pecado, a vergonha me cobria; me achava o mais indigno de todos. Nem me passava pela cabeça a ideia de tentar conversar com Deus novamente e pedir perdão. Para mim isto soava como "Seu hipócrita cara de pau! Ele sabe que você pecará novamente algum dia. E olha as coisas que você está fazendo. Você jogou fora sua segunda chance.". Até mesmo pensamentos de "Então, por que viver?" me transpassaram. E quero deixar claro que para quem viveu a experiência que eu tive/vive com Deus, não tinha mais o menor sabor ou desejo também querer 'viver a vida sem Deus', não tinha mais gosto depois de ter experimentado a água viva.

Saindo da Buraco
Não me recordo exatamente como foi que voltei atrás. Em especial alguns pastores e palestrantes como o Pr. Rafael Rossi, Pr. José Armando Kowalzuki e alguns amigos. E, apesar dos meus intensos estudos, muita coisa na Bíblia ainda não havia passado pelos meus olhos e eu nem imaginava (hoje ainda creio que pouco conheço deste livro). Me deparei com ideias do que os teólogos chamam de "Graça", e um entendimento um pouco mais profundo sobre Jesus (demorou +1 ano para saber o que significava "Evangelhos") e sobre o perdão. Como em Mateus 18 dizendo que o perdão deve ser dado infinitas vezes, 70x7 (simbolicamente). Confesso que não entendi isto, mas uma esperança reacendera. Embora nunca mais foi como antes. Perdi a ingenuidade. Passei a conviver com um profundo senso como de Davi no dia-dia:

"Porque eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim.
Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que é mal à tua vista, para que sejas justificado quando falares, e puro quando julgares. Eis que em iniqüidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe." Salmos 51:3-5

Foi em torno de 1-2 anos, até ter terminado de ler alguns livros (como História da Redenção, Caminho para Cristo e 95 Teses Sobre Justificação Pela Fé de Morris L. Venden) que me ajudaram a entender um pouco mais sobre este conjunto tão intrigante e paradoxal de ideias que hoje comumente chamamos de Graça, Justificação pela Fé e Obediência. Também, nesta época, conheci uma nova palavra "Legalismo" ou "Legalista" e compreendi que, no início desta jornada, eu, de fato, tive um pensamento puramente legalista: "Era eu que agia. A salvação ou não, tudo dependia exclusivamente de mim. Ou eu escolhia ser perfeito como Enoque, e era, diariamente, ou já era." Mas sei hoje que foi puramente genuino minha fé "legalista por ignorância". Outro texto recordo que me intrigou muito:

"Encheu-me de amarguras, fartou-me de absinto. Quebrou com pedrinhas de areia os meus dentes, cobriu-me de cinza. Alongaste da paz a minha alma; esqueci-me do que seja a felicidade. Digo, pois: Já pereceu a minha força, como também a minha esperança no Senhor. Lembra-te da minha aflição e amargura, do absinto e do fel.

Minha alma ainda os conserva na memória, e se abate dentro de mim. Torno a trazer isso à mente, portanto tenho esperança. A benignidade do Senhor jamais acaba, as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade. A minha porção é o Senhor, diz a minha alma; portanto esperarei nele.

Bom é o Senhor para os que esperam por ele, para a alma que o busca.
Bom é ter esperança, e aguardar em silêncio a salvação do Senhor.
Bom é para o homem suportar o jugo na sua mocidade.
Que se assente ele, sozinho, e fique calado, porquanto Deus o pôs sobre ele."
Lamentações 3:15-28

Este, como todo restante de Lamentações me subjugava de tal maneira que era como se Jeremias tirasse as palavras do mais profundo do meu coração e adicionasse ideias e elementos de esperança e misericórdia que eu nem imaginava, não compreendia.

Com o tempo, aprendi mais algumas coisas e a distanciar ainda mais meus pensamentos de ideias e concepções legalistas ou com cara disto (hoje me parecem tão absurdas que para cada 'defesa de tal' automaticamente me vem 10 questionamentos, contradições e refutações). Ao mesmo tempo, há coisas que permanecem como tremendamente misteriosas. Por exemplo, a Justificação pela Fé e as Obras. Parece que há uma barreira/divisória (pelo menos no mundo das ideias, ou como escrevemos no papel); mas, em termos práticos, no dia-dia, no que vemos, é tão tênue que é difícil distinguir. E, por vezes, notei, que a maioria das dificuldades e problemas não são aquilo que é 'físico', que podemos ver, mas o que não vemos. Quero dizer que duas pessoas podem estar praticando exatamente a mesma ação no mundo sensível (inclua até mesmo ambas com a mesma teologia em mente), porém, uma pecando por legalismo, e outra justificada pela fé, perfeita em Cristo. Como distinguir?

Predestinação & Méritos x Vontade
Continuo esta primeira conversa/exposição sobre este tema (que estou me aprofundando mais, com o intuito de 'ajudar' meus amigos que estão com pensamentos flutuando aos ventos do perfeccionismo e, por vezes, andando em águas que beirão ao oceano do legalismo e farisaísmo) com uma outra experiência que me foi marcante.

Alguns meses - talvez anos - após este ocorrido, me deparei com um conjunto de textos que falavam mais sobre 'os méritos de Cristo', sobre a 'predestinação à salvação' e, especialmente, quanto 'a morrer para o eu', entregar minha vontade, escolha e decisões para Jesus. Ou seja, cavando mais a fundo a ideia de, como diz a letra do Arautos do Rei, "Eu não sou mais eu. Cristo vive em mim.". Um dos textos diz: "efetuai a vossa salvação com temor e tremor;" Filipenses 2:12 Mas, como assim 'operar a vossa salvação'? O que isso quer dizer? Não é o sangue de Cristo que salva? Não fui predestinado a ser salvo? Na Cruz Jesus não operou/efetuou o plano da salvação, de salvar o homem do pecado? E agora? Como assim é o homem que efetua sua salvação?

Isto até me balançou forte no sentido de pensar que podia ser uma grande contradição na Bíblia. Mas note que o verso seguinte é mais polêmico ainda "porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade." (v.13) Parece ser mais contraditório ou estranho ainda, mas anula a suposta contradição anterior. O texto trás uma ideia que hoje podíamos fazer a seguinte analogia: "Robô R2 efetue tal coisa, pois Seu Sumo Programador e Controlador te projetou, te programou, e é ele que digita no teclado e opera para você fazer tal e tal movimento ou falar tal e tal coisa." É no mínimo estranho. Mas eu entendi que isto era algum tipo ideia de que se eu render totalmente a Deus, Deus me controlaria e faria tudo como um mero 'fantoche' ou 'trompete tocado pelo músico'; a forma mais direta deste texto nos dá a ideia de "fim do livre-arbítrio" e a imputação do que alguns chamam de "caráter perfeito" e "impecabilidade".

Mas vejamos aconteceu comigo (como depois soube que com vários outros) de terem profundamente rogado, pedido a Deus que Deus fizesse exatamente isto! De 'retirar o meu livre-arbítrio' (repare as aspas) e operar em mim tudo o que eu falasse, pensasse e fizesse. Eu dava total permissão para Ele fazer o que bem entendesse comigo, até mesmo me matar se quisesse. Mas que eu não pecasse mais; pois não queria. Queria ser seu servo perfeito, usado com máximo poder. E eu pedi, e pedi, e como pedi isto. E há uma chuvarada de textos bíblicos que colaboram com a ideia deste ideal e de que Deus está disposto a isto, a fazer e cumprir isto. Porém, o mesmo não aconteceu. Antes o contrário. Na melhor das hipóteses, o efeito prático deste texto seria algo do tipo 'funciona nas entrelinhas e no longo prazo'. Mas de fato, não ocorreu. E o que isto significaria? Que então Jesus ou Deus falhou? Que Ele não quis atender esta oração? Que não operou tanto o falar quanto meu efetuar?

O fato importante aqui é que um entendimento estritamente idealístico de perfeição neste texto me direcionava a entender exatamente que: "A culpa por eu não ser perfeito é de Deus.". Ora, eu pedi para Ele isso. Mas Ele não o fez. Eu pedi - e do fundo do coração eu - que eu não queria mais pecar, antes pequei. Usei e baseei-me com as promessas e textos (com o A+B+C certinho). Ou seja, se Deus não cumpriu a parte dEle, entramos, por efeito dominó, numa cascata que destrói/anula todo Cristianismo e a Bíblia. Haveria então outra saída?

Continuação do texto: "para que vos torneis irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus imaculados no meio de uma geração corrupta" (v.15). Note duas coisas: (1) eles já eram filhos de Deus e santos [Cap.1 v.1 deixa por extenso isso], (2) após essa ação (c/ Deus operando), no futuro, se continuarem ou buscarem fazer isso [mas que estranhamente é Deus quem faz] então sim eles se tornarão 'irrepreensíveis', 'sinceros' e 'imaculados'.
Reparou na aparente contradição? Como que eles já eram 'santos' se ainda precisavam operar (com Deus efetuando) para [no futuro] se tornar irrepreensíveis, sinceros e imaculados? Qual é a lógica e o sentido disso? Em outras palavras: Há santos que falam ou fazem coisas pelo quais merecem ser repreendidos? Há santos que não são sinceros, isto é, falam mentiras? (sendo que o Diabo é o pai dos que mentem) Há santos que não estão puros, limpos de todo pecado? ----> Se a resposta para todas estas perguntas for "não", então temos que afirmar que Paulo e Timóteo falaram uma grande besteira aqui nestes textos. Ou então precisamos entender melhor o que isto significa?

Luz Luz Mais Luz
Após a cortina que me impedia de ver minha condição ter caído. Dia-dia passei a me preocupar menos com o biscoito de maionese, pois comecei a absorver luz luz luz e mais luz. Luz de todas direções. E comecei a ver que cada célula de meu corpo era pecaminosa. [A experiência não nos trás apenas informações e nova luz, mas nos dá microscópios com lentes cada vez mais poderosas.] Cada pensamento meu. Cada palavra. Cada fonema. Cada estrutura morfológica, sintática, sinapse, cada palavra; o próprio 'pensar' (antes mesmo de 'o que pensar') era pecado. Pecado de pecado, é pecado. [Minha consciência me dizia para cada vez que espiava o Cristo pendurado na cruz.]

Exemplo disso foi com questão aos hábitos de saúde (os 8 Remédios de Deus, como costumamos dizer). Ficou claro para mim, extremamente claro, que para eu honrar e cuidar devidamente do templo do Espírito Santo (meu corpo) eu deveria respirar corretamente. Confeso que ter feito carate na adolescência, jogado muito futebol, fazer uma atividade física e tocar trompete me ajudou a respirar melhor do que a maioria das pessoas que conheço [o que é mensurável com alguns instrumentos, como o respiron]. Porém, não foi preciso muitos minutos para perceber que eu jamais seria perfeito nisto. Pois 60%, ou mais, das 22.500-30.000 vezes que respiro por dia (para um dia tranquilo) eu não respiro o melhor possível, da maneira que eu sabei que é o certo a se fazer; profanando assim com o templo do Espírito Santo. Além disso, conforme mais estudava, mais entrei no mundo das ideias, da Matemática, Filosofia, História, Estatística, em dezenas de livros do Espírito de Profecia; mais claro ficou para mim as limitações humanas. De modo que os 'ideais de perfeição' apenas atestavam minha pecaminosidade e necessidade de um Salvador, Sua Graça e Misericórdia. Quer outro exemplo? Postura. Hoje sei que deveria fazer +1hora de intensa atividade física por dia, e que não faço todos os dias.

Dou estes exemplos de cuidados físicos com os remédios de Deus, porque sei que são pontos que acho que a maioria enfrenta o mesmo problema e dilema com tais. [Apesar de muitos não reconhecerem.] Ao mesmo tempo, se eu ficasse prestando atenção em cada fôlego (que, graças a Deus, também funciona involuntariamente), eu usaria todo meu tempo e atenção com isto e estaria negligenciando todos os demais pontos [pecando em infinitos outros]. Ou sei, devido à alguns estudos, que a maior parte do nosso ser humano, pensamento, funciona não de forma ciente, consciente, mas por hábito, ou mesmo um 'mecanismo otimizado de processamento com menor custo de energia e máxima eficiência', é pensável, mas por eficiência só parcialmente ou em ocasiões especiais usamos tal recurso. Há diversas experiencias, especialmente com a "visão", "ilusões de memória" e "ilusões óticas" (como os experimentos de Hanson em Observação e Interpretação), que mostram que nós não temos CONTROLE sobre estes nossos 'processos otimizados' (o pensar, desejar, escolher, agir, falar... são alguns exemplos).

Logo, se acreditarmos como a Teologia do Perfeccionismo coloca de que 'pecado' é tão somente sobre aquilo que temos controle, e que Deus nos concede o poder para tão somente a parte que envolve 'nossa escolha' de fato então estamos minimizando a realidade, o que é pecado, assim como o poder de Deus e o 'controle' que Ele nos concede para 'fatias muito pequenas dos processos, em que, os produtos finais deste 'mecanismo otimizado de processamento com menor custo de energia e máxima eficiência' continua pouco alterado. O que cria diversas contradições e implicações com outras definições... pois de 'irrepreensíveis' não seria nada! Continuaria quase a mesma coisa. O poder de Deus é algo que não tem poder apenas sobre o que podemos chamar de CONTROLE ou ESCOLHA é algo muito maior, mais complexo e entrelaçado do que isto. Hoje como sempre cri, acredito que Deus tem poder para mudar muitas coisas do que tal Teologia atribuiria a 'Natureza Pecaminosa'. É uma transformação conjunta. Existe união íntima entre corpo, mente e espírito (expresso mil vezes por Ellen G. White) que não pode ser ignorada ou 'recortando' para deixar o corpo/natureza pecaminosa a parte como que tal só seria 'corrigida/salva/transformada' no dia do 'Piscar de Olhos' da Última Trombeta.

Finalizando
"De biscoito de maionese para 'respirar corretamente'? Evandro, você é louco e exagerado!" - Bem, dou estes dois exemplos, por ser um recurso Matemático para entendermos coisas/conceitos. É difícil, por vezes, saber se uma figura pequena é uma bola de raio = 0,01mm ou um cubo de lado = 0,01mm a olho nu. Usamos números grandes e escandalosos, damos zoom para ver, entender as propriedades e assim poder aplicá-las em outras e coisas e em escalas tanto grandes quanto pequenas. Do mesmo modo, digo que o que vale para o 'biscoito de maionese' e para 'a respiração' vale para todos os demais itens, 'pensamentos', 'ações' e 'decisões' do homem.

Se não acredito mais na perfeição de caráter? Pelo contrário. Acredito ainda mais. MUITO MAIS! Ao mesmo tempo, que ainda ma,is curioso, sou para entender os mistérios da perfeição de caráter em Cristo, assim como os mistérios da graça, os mistérios da justificação pela fé e os mistérios da obediência humana aliada ao poder e vontade divina. Usamos palavras diferentes, limitadas para descrever ideias tão complexamente entrelaçadas com o todo que me desperta a cada dia a curiosidade de estudar e entender ainda mais o quão pequeno eu sou, quão limitado minha mente o é, quão mais almejo respostas e o Céu; e quão mais se torna verdadeiro as palavras que "o justo viverá pela fé." [Fé que eu vivei, fé que talvez eu seja justo mesmo não me reconhecendo como tal.].

Um grande abraço.
Evandro


Nos próximos textos sobre este assunto, abortarei mais sistematicamente, objetivo e direto os principais pontos da teologia da perfeição de caráter e/ou perfeccionismo:
  • natureza pecaminosa; [ver]
  • caráter perfeito;
  • impecabilidade do homem;
  • perfeição plena antes do fechamento da Porta da Graça;
  • definições de palavras/ideias (pecado, dentre outros);
  • Ellen G. White e os 'outros textos esquecidos' sobre isso;
  • natureza e vida de Jesus.