13 novembro 2009

Uma experiência sobre a temporalidade e a música

Uma das coisas mais notáveis em minha vida foi no dia que me dei conta que eu perdi a perspectiva de temporalidade; sobretudo nos âmbitos musicais. Imagine uma criança que cresceu ouvindo apenas MPB, Rock, até Hap, sertanejo, entre outros; de modo, que automaticamente fui programado em considerar que a música era algo que deveria durar uns 3, 4, quando muito, 5 minutos. E que a classificava principalmente em decorrência das seguintes variáveis:
- fama, popularidade da música
- facilidade de ficar gravada na cabeça
- momento: se era mais legal no momento, no contexto cultural da época
- o grau de agitação “a la rebelião” que promovia, que trazia a idéia de que o mundo é uma merda, e só importava seguir o que a banda tocava
- o êxtase do momento

Contudo, músicas que ultrapassassem 5 min. e ficavam cansativas, perdiam sentido; “Que saco!” e logo queria trocar. Também vive num momento cultural onde o máximo era ter um aparelho de som que aceitava vários CD`s, nós compramos um que aceitava 3; ou seja, era música pós música, por 3 cd`s. E assim, um longo período de tempo de vários fragmentos de prazer, vamos assim dizer.

Embora, uma das coisas talvez que destacava meu gosto musical quando adolescente, é que eu gostava de ouvir alguns temas de filme, que fossem curtos. Como o “Indiana Jones”, “Star Wars”, mas que viviam pulando os “momentos lerdos e suaves”; principalmente se a música demorava.

Comecei a desviar desse caminho quando passei a ouvir um repertório mais sacro e religioso. Porém, ainda assim, a questão do temporalismo e precocidade da música continuavam. Eu considerava música de 5min. algo extremamente demorado; é como, nas palavras de Machado, “O leitor quer logo correr para o final.” Ainda não sei explicar bem essa impaciência. Mas foi quando realmente comecei a ouvir um repertório mais clássico que as coisas começaram a mudar; primeiro foi com a 1812 de Tchaikovsky. Era um verdadeiro desafio de inicio ouvir aqueles 17 minutos de música, a mesma faixa do cd. Mas um dia, fiz algo que acho que pouco tinha feito, sozinho em casa, liguei o som num volume considerável, e fiquei ali totalmente concentrado prestando atenção em cada detalhe da música, até o seu fim. Eu fiquei extremamente espantado. Com os olhos arregalados, empacado no lugar enquanto ouvia aquela coisa extraordinária que é como uma escalada que te leva ao clímax da montanha, e mais espantado ainda foi quando percebi que “não vi o tempo passar”, aqueles 17min. foram muito rápidos; é como num sonho, que o tempo parece não existir. E aos poucos foi indo; passei a ouvir mais obras que tinham uma duração de até uns 20min.

O outro grande obstáculo foi ouvir uma sinfonia. Até tinha algumas no computador, como a 5ª do Mahler. Mas eu olhava para aquele número indicando o tempo da obra, e que muitas vezes passavam de 40min. e isso me enchia de pavor: “Como assim, vou ficar 40min. ouvindo a mesma música?!”, “40minutos!!!!! Como pode?”, e mesmo nas primeiras sinfonias, ainda havia muitos restos de temporalismo em mim, os momentos dos segundos movimentos, dos sonetos principalmente, que normalmente são mais um largo, adágio, calmo, melancólico era “um saco poético!” ao meu ver. O tempo simplesmente não passava.

Mas quando ouvi pela primeira vez uma orquestra ao vivo, que se não me engano, foi a o OFSBC, tocando a 5ª de Beethoven; a coisa começou a mudar; pois além da música, eu ficava prestando atenção nos músicos, na quantidade de movimento, detalhe, na concentração deles, na empolgação e regência do maestro. E reparei que pelo menos umas 60 pessoas estavam extremamente concentrados executando “esse tempo inacabável para mim”. Isso foi um choque filosófico para mim, pois passei a considerar a questão de “eternidade”; e comecei a reparar, que não fazia muito sentido em cronometrar uma música, nem tampouco anjos, que vivem e vivem, a eternidade, que também não faria sentido para eles tocarem “curtas”. Aliás, lembro que eu amava uma de comercial chamado “Happys Days”, tipo que uma versão brincadeira do Happy Day, que durava 40 segundos a música. Começou a ter fortes contrastes em meu ser essa idéia de temporalismo e atemporal.

Mas o ponta final foi praticamente quando eu ouvi uma outra sinfonia, ao vivo, dessa vez, pela minha querida Orquestra Sinfônica de Santo André (OSSA), e era a 4ª Sinfonia de Tchaikovsky; mesmo o segundo movimento, e o scherzo, e eu não notei o tempo passar; Aqueles 40min. aproximadamente passaram sem eu perceber, e no final; até mesmo, queria mais. Todos começaram a pedir “Mais um. Mais um.” Batendo palmas, eu também entrei nessa; e eles repetiram o ultimo movimento, de aproximadamente uns 9 minutos, e parece que foi mais rápido ainda.

Daí em diante praticamente rompeu-se totalmente essa idéia temporal. Passei a não me preocupar mais com o tempo de duração, o relógio. E ao mesmo tempo, fui me envolvendo ainda mais com as sinfonias; de modo que passaram a ser momentos que eu gostaria que fosse uma eternidade. O que dizer da 9ª de Beethoven, da 4ª de Bruckner (apesar que confesso que na 7ª eu fiquei com dor de cabeça e não via a hora que terminasse), da 2ª de Bramhs...? Tem hora que no final da música que você fica até meio triste, abalado por perceber que a obra começou a caminhar para uma conclusão, mas você quer mais.

Com isso, 2 coisas interessantes ocorreram. Uma delas é que a vida e a música se transformaram numa outra coisa quando simplesmente o “tempo” praticamente deixou de existir; é quase como que alguns verbos deixassem de existir, como o “demorar”. Os resultados disso é inexplicável; fazer as coisas sem importar-se com o tempo, sem ter em mente nenhum objetivo de “que isso encerre logo, ou encerre em tal horas.” Por outro lado, o efeito contrário foi uma angustia que provocou ao finalmente abrir meus olhos e ver que eu vivo num planeta caído com uma cultura e pessoas de mentalidade temporal; senti um pato fora da lagoa é pouco. Mesmo na própria religião, no qual, de suma importância temos o culto de sábado de manhã, chego por volta das 8h30 e saio por volta das 12h30; umas 4h de duração; e sem temporalismo nenhum, é até meio triste quando chega no final; contudo, há muitos outros que chegam lá 10horas e não vêem a hora que “acabe logo”, sendo que muitos só nos veremos na próxima semana. Ao mesmo tempo, na música também; pois o que se tem atualmente é um mar de músicas temporais e precoces, mesmo as de uso para louvar a Deus (é a intenção) ; nem tanto pelo tempo de duração, pois há muitas obras sacras, como o Aleluia de Handel, que tem por volta de 5min. e você não vê esse temporalismo nela; mas é difícil de se ver algo que escape disso hoje; além, de apenas se ouvir e ver curtas, idéias, musicalmente, mal trabalhadas, rápidas demais. É quase que proibido se tocar um largo na igreja, pois atrasaria todo o restante; fazer algo que dure mais de 7min. e você corre o risco de apanhar. É uma frustração difícil de se medir, e que mal sei como explicar.

Bem logo esse dia vai acabar, e abrirei os olhos para um novo dia que nunca acabará, e o temporalismo deixará de existir.

3 comentários:

João Batista disse...

Ei, Evandro.

Tem algum site que eu possa baixar gratuitamente (e legalmente) música clássica?

Um abração.

Evandro Costa de Oliveira disse...

http://pqpbach.opensadorselvagem.org

é o melhor site no momento.
Você encontra praticamente de tudo, nas melhores interpretações possíveis.

joêzer disse...

hehehe. tb frequento o pqpbach. com esses preços dos cds importados...

"como ouvir algo com mais de 5 minutos?".
há três anos assisti um filme russo chamado "Andrei Rublev", de 1966, sobre um pintor de ícones. reflexivo, meditativo, com as cenas se sucedendo sem pressa. sem tiroteio, sem palavrões, sem sexismo. o filme simplesmente se desenrola diante de nós de maneira magnificamente bem fotografada.
mais ou menos como uma sinfonia de Brahms.
nessa ditadura da velocidade em que vivemos, em que os filmes de sucesso têm uma edição veloz e furiosa, fica uma outra pergunta: "como assistir a filmes com enquadramentos e cenas que duram mais de 1 segundo?"